Economia, complexidade e capacidade de resposta à crise

2 de julho de 2017 | Publicado por | Adicionar um comentário
Waves crash over the sea wall at Porthcawl in Wales, as winds of nearly 100mph battered Britain after Storm Imogen slammed into the south coast bringing fierce gusts and torrential downpours. Editors note: Image converted to black & white PRESS ASSOCIATION Photo. Picture date: Monday February 8, 2016. See PA story WEATHER Imogen. Photo credit should read: Joe Giddens/PA Wire

Joe Giddens/PA Wire

A economia, assim como vários outros sistemas existentes – uma colônia de animais, uma eleição, o clima, a bolsa de valores – são considerados sistemas complexos porque suas propriedades emergentes decorrem principalmente de relações não lineares entre suas partes constitutivas. Estes sistemas são compostos por vários aspectos que interagem entre si, formando uma nova estrutura, que por sua vez incorrerá em novas e mais complexas relações, e assim por diante. Os sistemas complexos não são simplesmente a soma de suas partes, como mecanicismo cartesiano; são muito mais. Não é por outra razão que para se estudar o desenvolvimento destes sistemas são necessários computadores de altíssima potência, processando bilhões de informações por segundo.

A crise econômica e financeira por que passa o país terá uma série de consequências, numa cadeia de causa e efeito de resultados imprevisíveis, gerando novos fatos agora ainda imperceptíveis. Sem nos preocuparmos em fazer a genealogia da crise pela qual passa o país – já que esta também tem origens complexas – comecemos pelo fato mais palpável e imediato: a alta da inflação e a consequente ascensão dos juros. A elevação do custo do dinheiro (juros) já se baseia em princípios simplistas, cartesianos, de mera causa e consequência: eleva-se o juros, tornando os empréstimos ao consumidor mais caros, reduz-se o poder de compra, provocando a queda da demanda e, como corolário, os preço das mercadorias. É através deste artifício reducionista que muitos burocratas do Banco Central e do governo esperam, não se sabe depois de quanto tempo, conseguir finalmente a queda dos juros. Fato é que até agora, apesar de doses maciças do amargo remédio, a inflação resiste e até aumenta.

Por enquanto, o xarope dos juros altos, além de não surtir efeito no combate da inflação, está minando outras partes da estrutura da economia brasileira. Em sistemas complexos cada providência tem suas consequências. Assim, a queda da demanda provoca a  redução do poder de compra. Este gera queda no faturamento das empresas, forçando-as a demitir mão de obra. Com o crescimento do desemprego em setores importantes, como o da construção, de serviços e indústria ocorre uma queda ainda maior no consumo, resultando em mais redução da produção e mais dispensas. Em todas as fases deste processo “queda de vendas -> aumento do desemprego -> queda de vendas…” ocorre uma queda na arrecadação de impostos. Sendo assim, o recente aumento de impostos também não deverá surtir o efeito desejado, já que o aumento das alíquotas não compensará a diminuição da base de cálculo.

A redução da receita do Estado terá outros impactos na economia, como a falta de recursos para investimentos em infraestrutura: serviços de saneamento, hospitais, escolas, projetos sociais, estrutura logística; isto para ficar apenas no básico elementar. Nem consideramos os cortes que sofrerão os investimentos em ciência, tecnologia e pesquisa (em medicina, agricultura, eletrônica e TI, aeronáutica, energia, etc.), meio ambiente (criação de unidades de conservação, aparelhamento de parques nacionais, implantação de programas diversos) e modernização da máquina administrativa do governo em seus três níveis.

As medidas de ajuste ora implantadas são necessárias, pelo menos nos primeiros instantes, para conter a hemorragia do paciente e evitar que a situação do Brasil se agrave. Mas o tratamento para sua definitiva recuperação, implicaria medidas de reforma política do estado, da política econômica e fiscal, além de outras providências gerais de modernização, desburocratização e democratização do acesso aos serviços do Estado.

Resta saber se com o capital humano de que dispomos – no Executivo, Legislativo e Judiciário – tal empreitada é passível de ser realizada. Além do esforço mensal de embolsar grande quantias em dinheiro público a título de salário, auxílios e outras benesses – algumas delas até não oficiais – a contribuição que estes poderes vem dando à causa da República ainda está longe de ser suficiente.

Arquivado em: Sustentabilidade

Sobre o autor (Perfil do autor)

Consultor em inteligência de mercado, marketing e negócios no setor de meio ambiente. Jornalista ambiental e escritor, tem especialização em gestão ambiental e sociologia. Graduado e pós-graduado em filosofia. Atua no setor de sustentabilidade desde 1992, trabalhando em instituições internacionais. Articulista, escreve para diversas mídias sobre meio ambiente, gestão pública, energia e temas culturais. Coordenador e coautor de diversas publicações sobre meio ambiente e energia, também é autor dos livros "Como está a questão ambiental? 100 artigos sobre a relação do meio ambiente com a economia e o clima" (2011); "A cidade e os recursos" (2013) e "A religião e o riso & outros textos de filosofia e sociologia" (2013). É editor dos blogs "Da natureza e da cultura" (www.danaturezaedacultura.blogspot.com.br) e "Considerações Oportunas" (www.consideracoes-oportunas.com.br).

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